Pensamento do último dia do ano

“Hoje encontramos no mercado uma série de produtos desprovidos de suas capacidades malignas: café sem cafeína, creme de leite sem gordura, cerveja sem álcool… E a lista não tem fim: o que dizer do sexo virtual, o sexo sem sexo; da doutrina de Colin Powell da guerra sem baixas (do nosso lado, é claro), uma guerra sem guerra; da redefinição contemporânea da política como a arte da administração competente, ou seja, a política sem política; ou mesmo do multiculturalismo tolerante de nossos dias, a experiência do Outro sem sua Alteridade (o Outro idealizado que tem danças fascinantes e uma abordagem holística ecologicamente sadia da realidade, enquanto práticas como o espancamento das mulheres ficam ocultas…)? A realidade virtual simplesmente generaliza esse processo de oferecer um produto esvaziado da sua substância, do núcleo duro e resistente do Real – assim como o café descafeinado tem o aroma e o gosto do café de verdade sem ser o café de verdade, a Realidade Virtual é sentida como a realidade sem o ser. Mas o que acontece no final desse processo de virtualização é que começamos a sentir a própria “realidade real” como uma entidade virtual.”

ZIZEK, Slavoj.

sua buceta era uma guilhotina e

ela subiu na mesinha da cozinha e abriu as pernas
e eu entrei dentro dela esticando meus pés para alcançar a altura certa
com suas mãos moendo minha nuca e costas.
durante o coito, ela imaginou que se conseguisse despertar a mesma vontade em seu ex-marido, talvez estivesse feliz ainda hoje.
já eu divagava sobre a resistência curda e em rock de rádio para não gozar – e também como somos egoístas quando transamos:
nos despimos juntos, mas depois que estivermos satisfeitos
não ajudaremos um ao outro a recolocar as roupas.

meu amor por você não enche uma folha de sulfite

num hotel barato no centro da cidade
o guarda roupa estava pichado como banheiro de rodoviária
na cama dum quarto de hotel
suportávamos nus o inverno, colados um no outro
e tua barba me deixava vermelha

você entrou em mim diversas vezes e seus olhos pousaram sobre os meus
eles me prometeram
uma casa pequena perto das ondas e uma linda criança/uma menina
“ela terá os cabelos claros da mãe e vai passear comigo em meus ombros”
enquanto seus lábios moviam palavras
imaginei você escrevendo, nossa varanda, tijolos
em um quarto de hotel tínhamos chocolates e água
e lágrimas felizes caíam das minhas bochechas
suas mãos depois do banho – enrugadas, me fizeram te desejar até a sua velhice

num hotel barato no centro da cidade, 3 meses depois

tu disseste “eu te amo” pela última vez porque era o que eu queria ouvir

e foi embora

o Egoísmo, aquele filho da puta, se revelou sua amante

e sua tatuagem me faz lembrar que demônios também têm asas

e o quase-amor,

essa bela flor
irá crescer como uma praga em seu coração,

e minha bulimia,

minha arritmia

serão seus troféus de dor.

*

eu a moça de vestido abóbora

nos encontramos em um pub irlandês onde garçons haitianos nos serviam e naquele dia eu havia recebido o salário do mês e podia impressioná-la com a minha independência financeira, pedindo porções fora da promoção. após uma breve conversa inicial, ficamos em pé no canto mal iluminado do bar e nos beijamos por três horas – parando somente para respirar, trocar a cerveja do copo, mijar no banheiro a mesma cerveja e encontrar dentro da garganta um do outro algum resquício de amor, anestesiando a solidão de uma cidade que é recordista em dias cinzentos no mundo.

Diário dos Sonhos. Escrito por mim mesmo. Participação especial – Oneiros.

Pesquisa: anotar os meus sonhos. Justificativa: eles são poucos e raros: na maioria das vezes eu simplesmente desabo na cama e só retorno à vida ao som do despertador. Metodologia: assim que acordar, se houver algum vestígio de sonho na memória, anotar no celular.

1

Na auto estrada o Sol parece uma grande bola laranja-fruta, é fim de tarde. Estou em um motel americano com o meu primeiro amor, uma guria baixinha, quase japonesa. Fecho a porta e enxergo apenas em preto e branco. Conversamos, mas não há som nenhum. Tenho a impressão que de um controle remoto alguém apertou o “mute”. Ela está sobre a cama, com as pernas cruzadas de índio e com os olhos molhados –  um adeus permanente naquela vida.

2

Estou parado na frente de uma casa de muros baixos, que chegam na minha cintura. De dentro dela exala um cheiro de comida caseira. Por uma fresta da janela da cozinha, vejo uma mulher familiar. Ela está cozinhando e tentando cantarolar, do mesmo modo que pessoas mudas fazem quando tentam falar. Seu rosto não possui forma. Sinto um enorme amor por ela, por aquela casa e pelos cheiros dos temperos. Seu rosto sem olhos, nariz, boca e orelhas parece feliz.

3

No corredor de casa ouço o barulho do chuveiro. Pela aquela hora, eu sabia que era meu pai que estava no banho, pois sempre que chegava do trabalho, no fim de um dia abafado de uma cidade no litoral, ele tirava suas roupas sociais e tomava uma ducha. O velho chegava a tomar 4 banhos por dia. Cambaleante, apoio-me nas paredes do corredor, em passos tortos até a cozinha. Ali, encontro minha esposa lavando a louça despreocupadamente. Olho-a incrédulo. O que minha mulher está fazendo na casa de minha infância? Atrás de mim, meu pai sai do banho, com apenas uma toalha enrolada na cintura. Nesse momento, Clara nota minha presença e me encara com os olhos tristes. Seus olhos sussurram: “O que você está fazendo aqui?” Observo os dois e tenho a percepção que invadi a casa de um casal. Sou um amante, vindo em uma hora inesperada.

4

Acordo dentro do meu próprio sonho, consciente. Não sei como obtive essa certeza. Sinto-me presente no presente, em uma realidade que me beija a pele. Estou embaixo de um viaduto. Fico um pouco assustado, mas procuro manter a calma e me ponho a andar pela rua. Vejo diversas lojas. O que me chama a atenção é uma farmácia, ou melhor; apenas o letreiro dela. Ao contemplá-la sou tomado pelo medo e deslumbre. Creio que não deveria estar ali. Em segundos, tenho a sensação de que puxam a tomada e saio do meu sonho com a mesma facilidade que entrei.

Depois disso, são 6 e meia e abro os olhos. É o despertador. Saio da cama e vou ao banheiro. Estou de pau duro e erro mais uma vez ao mijar na privada.