Manhattan Connection

não vou perder tempo lendo Kotler
sendo que tenho Hemingway
Não vou perder tempo com Olavo de Carvalho
Sendo que eu já tenho a quinta série
Foda-se a mão invisível de proctologista do seu Deus Mercado
os meus deuses sorriem, dançam e fodem sem culpa
Eles existem a milênios, antes do rastejar dos seus profetas no Oriente Médio e me trazem mais conforto que as oscilações das suas ações
NÃO CONFUNDA A REAÇÃO DO FODIDO COM A VIOLÊNCIA DO FODEDOR
inda iremos pendurar de pernas pro ar, em praça pública
os senhores de engenho das diretoria do Bradesco e Itaú
os Mussolinis descansarão
e nós também

 

revelação

somos os anônimos da Terra
manuseando certezas como dardos tranquilizantes
perguntei a aqueles que a muito já não estão entre nós
como estancar a ferida purulenta por baixo da camisa
se ainda é necessário fingir dormir no sofá para meu pai me levar pro quarto no conforto dos seus braços
disseram que o capitalismo vai entrar em declínio somente quando publicitários realizarem uma greve geral
protestando pelas ruas com seus cartazes onde o texto respeita os 20% do Facebook
E não mais aplaudirem o pedófilo flautista de Hamelin
quando as racistas Helenas pensionistas filhas de militares da Zona Sul casarem-se
Criando uma nova categoria interracial e sem classes no RedTube
disseram também que o que quero eu não irei encontrar enquanto meu espírito-inquilino habitar essa carcaça de carne

testamento

tô fumando na janela, olhando pra constelação de Órion como já fiz muitas vezes antes pensando em você, pensando nos sentimentos criados como forma de não me sentir sozinho. Olha, tu não tem culpa de nada. Na verdade, queria agradecer por suportar a negatividade mental que muitas vezes te enviei a distância. Na época eu estava num momento difícil com a família, comigo mesmo. Interpretei seu interesse intermitente em mim como amor – algo que eu não encontrava em nenhum lugar. Depositei em ti uma esperança imaginária da minha felicidade absoluta, um peso que você não tinha responsabilidade de carregar. No fundo, eu só queria ser amado. É o que todos queremos, não é? Ando simpático a ideia de que o amor é uma conquista e que para manter seu reino de pé é necessário dedicação – coisa que não te ofereci – em vez de um alicerce de abstrações. Queria dizer que durante anos sonhei como seria se a gente fosse para minha casa ao invés de termos nos desencontrado naquele Ano-Novo. Arquitetei realidades onde teríamos uma criança com seu olhar. Onde, depois de um dia na praia, cheios de sal e areia nos pés, iríamos transar sem pressa no banho quente com o sol de fim de tarde limpando angústias. Quantas músicas me lembraram você, pessoas parecidas nos ônibus… Uma vez, com uma antiga namorada, comecei a sentir alegria. E, de repente, tu apareceu na minha cabeça. Um estalo. Na hora fantasiei se poderia ter sido feliz da mesma forma contigo. Possibilidades como labirintos. Nos últimos tempos, vi uma foto sua sorrindo no Instagram e me peguei sorrindo também. Caralho, viu. Eu poderia ter te amado para sempre. Ou poderia parar de romantizar o passado, regando ilusões ao procurar dar significados maiores e transcendentais aos nossos poucos encontros. Sabe romance barato de aeroporto, meio Quando Nietzsche Chorou? Quase isso.

Bem, te falar que, não estou fumando um cigarro na janela. Isso foi ontem. Escrevo esse texto voltando de viagem da cidade em que nos conhecemos. Sempre que estou em Santos lembro com carinho de você. Andei de propósito pela rua que demos nosso primeiro beijo, tentando, sei lá, sentir algo. No fundo, eu só queria ser amado. É o que todos queremos, não é? Mas não te encontrei ali. Muitas vezes as fotos não representam o que os olhos sentiram. O que senti por você? Paixãozinha adolescente misturada com falta de amor próprio, projetando na sua pessoa a redenção da minha contínua carência? Ou o clichê do primeiro amor e a percepção de por pouco tocar algo único, que faz um cabra de 31 anos olhar para as estrelas desejando recordar um sotaque de mar e ondas que nunca esqueceu?

Eu não sei. E tá tudo bem.

Livros Sibilinos

Pai, se eu superar essa raiva dentro do peito
O que mais vai nos ligar?
Protegido pelo capacete de Hades
finjo que sou rei do meu Sheol
um império que se expande do alfa ao ômega

que cresce continuamente
como câncer, como capitalismo
Soberano em minhas crises de ansiedade
Queimo carma em brasas de cigarro
Filho, não creia em homens de terno
Homens de terno com bíblias
Homens de terno com bíblias brancos
não há Deus nem Mestre
além de você

O sentido da vida é procurar sair da roda de hamster de Samsara
o derradeiro prazer não será encontrado mesmo fodendo todos os buracos
Peixes nadam em minha lua
E estrangulo a melancolia com as mãos
Caminho por lugares onde poderíamos ter criado histórias

a deusa da poesia romântica é filha da memória
retratada em fotos
de minha mãe criança com o rosto encovado de fome em Goiânia

currado pelo Evangelho

não sinto nada ao ler o seu nome
Cidades se repetem a cada esquina
justo agora que tenho dinheiro pra deitar com a Liberdade
A maioria silenciosa
Come sua própria carne
Em varandas gourmet
Assistindo novelas em que o Luís Melo aperta os olhos fingindo ser japonês
Seus escritores de pulôver inundam páginas com inquietudes burguesas
Sou Charles Milles Maddox e sussurro o que você sempre quis fazer
Diante do Trono eu cago
Sou Juliano, o último rei pagão
Proclamo que idosos mortos
mulheres estupradas das tribos invadidas
animais mortos em oferenda
e os deuses de seus irmãos acusados de demônios
nessa busca pela terra que mana leite e mel
não vão descansar
enquanto vocês continuarem a ceder poder
com olhos fechados em oração
ao Demiurgo que chamam de Deus
ele me deu um pino
gostamos de cocaína misturada com pó Royal/bicarbonato
faz durar mais
os desejos que nunca estão satisfeitos
Javé, assassino de crianças
fútil como calouros publicitários
é um voyeur
Detrás da sarça ardente
observa
com calças arriadas e pau espumando
olhos de loucura
uma Criação
que não é mérito seu.

canção: Brasil Diarreia. álbum: capitalismo transforma criança em influencer

Há 500 ano português mijou no chão
Demarcando minha terra, meu orgulho, minha nação!
filhos de meritocracias hereditárias
Eugenista classe média
Branquitude parasitária!

Patriota, idiota!
Patriota, lambe bota! (2x)

O mais perto que temos de comunismo
são Casas de Swing pra casal
RJ narco-cristianismo
Capitalista sem capital
rebelde apartamento
Bando de Incel triste pobres ganham 3 mil real
Acham que são elite

Patriota, idiota!
Patriota, lambe bota! (2x)

AGRO É TECH, AGRO É POP, AGRO É TUDO!
Comê muito veneno, inté enchê o bucho
Por tradição, família e propriedade
Abatemos índios e negros
Mas fazemos caridade 🙂

Patriota, idiota!
Patriota, lambe bota! (2x)