Where is my mind?

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– Hey Mike, vamos para a academia?

 – Obrigado John, mas eu tenho tudo o que eu preciso em um só aparelho…”]

[24 de setembro]

Meio-dia. E lá se vão 2 semanas sem sair de casa. Olhos vermelhos, barba por fazer e um cansaço permanente. Bitucas de cigarros, garrafas de cerveja e um cheiro de suor impregnam esse cu de quitinete; faltam-me copos, estão todos na pia, sujos. Uma brisa do oceano e ouço o barulho dos sinos do artesanato pendurado na janela de um apartamento vizinho. Os pelos do meu braço se eriçam, começo a suar frio. Ando sentindo calafrios, como se tudo estivesse interligado ao meu espírito, em correntes presas a algo único. Meu crânio começa a estralar. Curtos momentos de vazio interno. Os sons da rua com seus carros, pessoas e sapatos, tocam os meus sentidos. Alguns alcançam esse estado com meditação. Ou, no meu caso, com abstinência de pó.

[25 de setembro]

Sinto-me bem com as minhas verdades estabelecidas, com o sexo pago, com os meus móveis novos. Meus monólogos internos aumentaram. De vez em quando, lembro que possuo uma alma, porém, isso me traz uma responsabilidade que não posso carregar, pois envolve fazer a minha verdadeira vontade, e não há nada mais perverso que isso. Como uma esponja, absorvo as intenções das pessoas, suas alegrias e tristezas, mesmo sem conhecê-las direito. Certos ambientes me elevam/deprimem.

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[26 de setembro]

Não consigo manter um estado de observação permanente, minha mente anda rápido em passos descontrolados nas ruas de Tóquio. Em instantes meus pensamentos vão e voltam, músicas tocam, preocupações nascem. Pessoas com suas conversas mesquinhas dentro da minha cabeça, falando e falando, sem permissão! Eles fazem parecer que os desejos deles, são os meus. Pela janela vejo prostitutas menores de idade e viciados que pedem dinheiro nas ruas. Não sinto pena. “O medo é o seu único Deus” – diz a pichação no muro. Um preto velho, mendigo, com a barba branca como algodão doce observa as pessoas na rua, brincando calmamente com seu Urim e Tumim nas mãos. Possui um olhar meigo e espera um sorriso incolor de todos que passam por ele.

[27 de setembro]

Faríamos 1 ano juntos hoje. Tempo seco do caralho. No céu, 3 marias… Sidarta, Mohamed, Yeshua, todos tiveram contato com o divino. Por que eu não? Os verdadeiros mestres não escreveram livros. Isso me lembra os jornais. Meu pai uma vez me disse que para saber das coisas eu tinha que comprar um jornal. Mas, se eu quisesse deixar de ser mal informado, deveria parar de lê-los.

[28 de setembro]

O trânsito tá lento. Começou a chover. Não ando triste, ando conformado; no melhor estado: aquele em que você não tem expectativas. Não tenho dores de cabeça, nem grandes questionamentos. Acabou o Derby. Não tenho dinheiro para comprar um maço, no máximo vou conseguir arrumar 3 cigarros soltos na banca da esquina. Preciso sair… Aperto o botão do elevador. Térreo.

[29 de setembro, Dia dos Anjos]

Pensei em Clara e sobre nosso encontro na fila do pão. Ensaiei minhas falas e posturas quando nos víssemos ao acaso várias vezes na minha mente. Pintei lindos quadros em meus sonhos forçados… Mas ver ela de frente, foi difícil. Clara me pegou desprevenido. Não demonstrei afeição quando a vi, fui forte. Conversamos como velhos amigos. Cada olhar de não desejo que ela me deu, veio como um soco no estômago. Ganhei um abraço ao final da conversa. Um abraço. Daqueles em que há uma distância pélvica. Porra, talvez eu seja um Neandertal, não sou tão civilizado ao ponto de ter amizade com ex-mulheres minhas… Sua felicidade me constrange… Pontadas no peito, falta de ar… Depois desse encontro minha gastrite piorou…

Risos. Vertigem.

*

– O que esse filho da puta tem hein? Tá babando e se debatendo todo. E essas risadas, coisa do diabo. Temos que sedá-lo, já é a terceira vez hoje!

– Sei lá cara. Vamos aplicar Penfrezona para acalmá-lo. Segura ele Marcondes!

– Merda. Vou amarrar mais forte o cinto aqui.

– Anda logo. Já tá dando o horário e não vou fazer hora extra hoje.

Entre a serpente e a estrela

– Você me ama?

– Sim, claro que amo. Mas te amo mais quando você está em cima de mim.

– Ha ha ha besta. No feriado de sexta, o que vamos fazer?

Ela quer saber se eu a amo. E ela não quer só saber de semana que vem. Ela quer saber o que será da gente semana que vem, daqui a 6 meses, o noivado daqui a 2 anos…

Ana mora a 4 horas da minha cidade. Um bom motivo para o desencontro que provocarei na próxima sexta seria o fator “distância”. A minha distância emocional.

Não se trata da resposta, e sim, da pergunta certa que ela deveria ter feito.

– Não sei minha menina, vamos ver.

Acendo um cigarro.

Nunca aos domingos

Esses meus momentos duram pouco, mas ando feliz. Permito-me estar alegre, como nos comerciais de margarina que vejo na tevê.

Ela não apela para a trocada de pernas no momento exato, a mexida no cabelo proposital, o riso estriônico e forçado das minhas piadas sem graça… Tais coisas são apenas ilusões, assim como cirurgia de reconstituição do hímen, Socialismo e cerveja sem álcool.

São por seus trejeitos inconscientes que a amo.

Seu rosto inchado com os olhos puxadinhos, entreabertos, pela manhã, pedindo para eu deitar mais um pouco.

É lamber o cabelo como os gatos, passando e repassando as mãos entre eles, sentada como um índio na beira da cama.

A letra do recado deixado na mesa. Suas formas harmônicas, redondas. A leveza da escrita, que não marca o outro lado da folha…

O cheiro do pós-banho. Antes de passar creme nas pernas e no cabelo, ressalte-se.

É como dorme com as subidas e descidas do meu peito enquanto respiro.

Ou vestida com minha camisa de vereador e samba-canção, vendo Revolver – aquele filme do marido da Madonna –  ao meu lado, num domingo chuvoso em um hotel com o H caído…

Comerciais acabam em 30 segundos. Alguns outros, em 15. Eu lhe tive por 1 hora hoje.

“Foram 200 reais” – Disse, enquanto colocava a meia calça.

Há tempos

 

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Quando moleque a conheci, com uns 14 anos, naquelas saidinhas da escola depois da aula. Segundo certas correntes religiosas, algumas pessoas que encontramos nessa vida são conhecidas de vidas passadas. Ou, por meio de uma ilusão pseudo-espiritual, eu tento justificar as borboletas no estômago que tive na primeira vez que eu a vi. Sei que mesmo tão novo, senti algo verdadeiro e mesmo anos depois, procuro a mesma sensação em outras. Meu primeiro amor. Amiguinhos em comum nos apresentaram. Linda, branquinha. Quanto mais bonita e pura alguma coisa é, melhor é a sensação de corrompê-la. Trocamos fluidos.

*

Perdemo-nos no tempo. Fiquei anos sem vê-la. Mas a vontade sempre esteve lá, escondida em névoas. Tive saudades. Sem ela minha vida foi, e ainda é, tediosa; como papos sobre o tempo e músicas da Björk. Somos feitos de desejos. Culpo-me por pensar em te procurar.

*

Foda-se. Sei onde você anda agora, perguntei por aí. Com sujeitos da pior espécie, ouvi notícias. Vou te ver, ou melhor, preciso te ver, preciso expurgar coisas, lembranças, buscar motivação, respostas. Ando mentalmente rápido ao seu encontro.

*

Ela me proporciona aquela sensação de férias, que é sempre melhor que a realidade. Consigo seu telefone pelo jornal, nos classificados, e marcamos o encontro em um motel beira de estrada, placa vermelha piscante. Ela aceitou de imediato a proposta. Safada. Ponho minha melhor roupa junto aos meus piores pensamentos.

*

As pessoas esquecem-se do que você diz, mas nunca de como você as fez sentir. Subo as escadas. Não sei se a amo, ou gosto mais da sensação de estar apaixonado. O que falar? O que demonstrar? Talvez, na verdade, eu seja o tipo de pessoa que só acredita em si através dos elogios dos outros. Suor frio… Respiro fundo e acendo um cigarro, parado na porta do quarto. Movo incríveis forças para tocar a campainha. Ela abre a porta. As filhas deles vão me deixar, você não. Tu continuas linda, branquinha. Quero você. Por 20 reais. She don’t lie.

Te amo, Cocaína.

Texto publicado no Jornal Relevo, Curitiba, março, 2013

O trabalho danifica o homem

Bato o ponto mais uma vez. Atrasado 10 minutos. Merda. Vai ser descontado no próximo pagamento.

Percebi esses dias: eles chegam ao trabalho como o gado indo para o abate, devagar, a passos calmos; tristes, porém conformados com destino. Vão ser cortados e embalados em pedaços de carne por oito horas – quer dizer, sete, pois uma hora é tirada para o almoço. Mas todos os dias às 6, ou um pouco antes até, saem do serviço com um sorriso largo na expressão. Só faltam dar famoso soco no ar do Pelé, de tanta alegria.

Mal chego e o Pedro já me conta, de um modo engraçado, sobre a incompetência do serviço executado por Paulo no dia anterior. Ele espera que eu me alegre e compartilhe da alegria pela miséria alheia. Faço-o feliz e lhe dou um sorriso amigo, concordando, mesmo pensando: “Deus, não consigo me livrar desse cara”. Mas até que é um bom sujeito o coitado, sempre me conta as novas.

Cristóvão, meu chefe, dá ordens. Esse é o trabalho dele: “dar ordens”. Ele já alcançou um grau tão elevado e iluminado na montanha empresarial que não precisa mais trabalhar, apenas delegar tarefas. Fica sentado em sua poltrona (a melhor da firma) vendo e-mails pornográficos que seus amigos e bajuladores mandam. Todo o mundo sabe o motivo daqueles risos no computador, mas ninguém ousa comentar. De minha arte, faço o serviço mandado por ele e entrego. Faço e entrego. Faço e entrego. Não recebo elogios. No máximo um olhar de “muito bem” e outra ordem, que precisa ser executada com o máximo de rapidez e eficiência, como um cão adestrado. Se eu fosse um cachorro, pelo menos receberia o biscoito da recompensa.

João não trabalha, e seu serviço sobra sobre mim. Ele tem muitos anos de empresa e faz o básico no meio de campo, um verdadeiro Zinho na seleção do escritório. Estranhamente, não é cobrado por ninguém.

Judas leva as fofocas e os erros dos outros ao chefe. Imagina que com isso passa a imagem de cara preocupado com a Empresa, abnegado, um ser que pensa no coletivo. Um grande boçal, no entanto, é o que ele é. Esse safado necessita mostrar que está preocupado, mesmo com as pequenas coisas, mesmo com as coisas de que ninguém dá importância, mesmo com a necessidade de fazer um orçamento com quatro empresas diferentes sobre a compra de clips coloridos que facilitam a demarcação de assuntos nas pastas. Não por acaso, ele que vai substituir meu chefe nas suas férias.

Mateus rouba a empresa. Leva as resmas de papel do escritório para a filha, que está na faculdade de Direito e precisa imprimir trabalhos e livros volumosos. Ela dá pro rapazinho do xerox, e com isso economiza anualmente 850 reais.

Madalena, a secretária, é a única mulher da empresa. Não bastasse, é gostosa. Dá mole pra todo mundo, já até saiu com o Cristóvão, mas nunca retribui meus cumprimentos de bom dia. Esses tempos fiquei olhando aquelas coxas enquanto estava sentada. Branquinhas, grossas e fortes, permeada de pelinhos eriçados pelo frio do ar condicionado. A saia, teimosa, insistia em subir mediante seus movimentos na cadeira. Do meu computador, com uma cara de besta, fiquei olhando uns bons minutos pra aquele monte de carne, como um cachorro sentado observando o frango a rodar na máquina da padaria. Ela percebeu a minha babação, abaixou a saia e fez uma cara de repulsa para mim. Se eu fosse um cachorro, teria me feito carinho.

Felipe não fala com ninguém. Nas poucas vezes que balbuciou algo, sua fala soou tímida e auto piedosa. Este protótipo de ser humano não demonstra emoções, seu rosto é uma interrogação; nunca sei ao certo quando está triste, alegre ou com vontade de cagar. Vejo o cara chegar, colocar os fones de ouvido, digitar no computador, tomar café às quatro e ir embora. Não sei seu sobrenome. Ele me lembra aqueles rapazes calmos e serenos que volta e meia invadem um cinema com uma submetralhadora e descarregam sua raiva contra os filmes da Sofia Coppola.

Lucas usava o telefone da firma para ligar para suas amantes. Ligações interurbanas, e também para celular. Há dois meses o chefe descobriu e acabou com a farra. Todas as ligações particulares foram proibidas. Mesmo se ocorrer um assalto, vier um tsunami ou se a sua mulher estiver precisando de ajuda porque está em trabalho de parto. Não pode. Ando agora com cartões telefônicos, o orelhão é perto da esquina. A conta de telefone de Lucas veio em 637 reais. Foi descontado do seu pagamento. Tranquilo: meu chefe parcelou a sua dívida em 5 vezes, debitado em folha.

 

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Não acessamos a internet no nosso trabalho. Roupas, apenas sociais. Não podemos deixar a barba crescer. Políticas comportamentais da empresa. Parece o Velho Testamento: “Não deixarás a extremidade de vossas faces peludas, sob pena de castigo e advertência divina.”

Não há pessoal da limpeza, pois a terceirização custa muito. Então, é feita uma escala semanal para os próprios funcionários limparem os banheiros. Segundo alguns especialistas de recursos humanos e uma pesquisa recente dessas universidades americanas, limpar a privada onde seu colega acabou de cagar traz mais proximidade e melhora o senso de equipe.

Tento, nas reuniões, aparentar estar feliz por alcançar resultados que não me trazem benefício algum. Rio das piadas de Tiago, meu supervisor, apenas para me enturmar.

De vez em quando o pessoal entre em greve e pede aumento. Sinto vergonha em ver André, meu amigo de baia e chefe do sindicato, mendigando aumento salarial. Parece que pedimos um favor a eles. Porém, gosto quando dá certo, e o reajuste esse ano foi de 2,5%. Sucesso.

Bem, hoje foi dia do amigo secreto da empresa, com direito a salgadinhos frios e refrigerantes baratos. Judas tirou chefe e deu-lhe de presente um par de tacos de golfe. O acertado entre todos era de que o valor máximo dos presentes fosse de 50 Reais. Esse safado sabe como agradar, deve ter gasto o quadruplo disso. Eu dei um DVD do Roupa Nova para Mateus. Estava na promoção, foda-se.

Desde 1988 trabalho aqui. Segui o conselho do meu pai, que me sempre me falava das maravilhas do funcionalismo público. Não tenho plano de carreira.

Bato o ponto e vou embora. Fico uma hora e 7 minutos no trânsito até chegar ao meu apartamento. Vazio.

Minha filha acabou de ligar. Disse que não vai poder ficar comigo esse final de semana, pois vai viajar com a Gi, a Rafa, a Gabi e a Tati pra Maresias. Além disso, me pede dinheiro. Como se já não bastasse a pensão. Digo que irei depositar na conta da mãe dela.

Tomo um banho e ligo a TV.

Nos noticiários, a mesma ladainha de sempre. Morreram mais alguns árabes em um atentado a bomba no sei-lá-quistão, meu time empatou e estourou outro escândalo de corrupção com um nome engraçado. Acabo dormindo no sofá, com a televisão ligada, volume baixinho. Quer dizer, tento dormir – meu corpo dói por inteiro, então vou pra cama. Trabalho o dia todo sentado, mas sinto as mesmas dores que um pedreiro ao final de um dia de labuta sob o sol erguendo muros.

Minha libido anda baixa. Não tenho vontade de me masturbar, tampouco sair com uma mulher. Não é o caso de não desejá-las. Talvez seja por não me desejar.

[7:00]

Novo dia. Acordo suado. O sol absurdamente forte invade minha casa pela janela. Ponho-me de pé e vou ao banheiro, mijo, tomo um banho, requento um café velho, não necessariamente nesta ordem.

Saio, entro no carro e ligo o rádio. Notícias. Enfrento o trânsito como o resto do gado.

Chego ao escritório e mais uma vez me atraso de propósito. Ninguém notou. Merda. 25 minutos atrasado. Vai ser descontado do próximo pagamento.

 

Texto publicado no blog PapodeHomem, novembro de 2012

http://papodehomem.com.br/o-trabalho-danifica-o-homem/