Há tempos

 

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Quando moleque a conheci, com uns 14 anos, naquelas saidinhas da escola depois da aula. Segundo certas correntes religiosas, algumas pessoas que encontramos nessa vida são conhecidas de vidas passadas. Ou, por meio de uma ilusão pseudo-espiritual, eu tento justificar as borboletas no estômago que tive na primeira vez que eu a vi. Sei que mesmo tão novo, senti algo verdadeiro e mesmo anos depois, procuro a mesma sensação em outras. Meu primeiro amor. Amiguinhos em comum nos apresentaram. Linda, branquinha. Quanto mais bonita e pura alguma coisa é, melhor é a sensação de corrompê-la. Trocamos fluidos.

*

Perdemo-nos no tempo. Fiquei anos sem vê-la. Mas a vontade sempre esteve lá, escondida em névoas. Tive saudades. Sem ela minha vida foi, e ainda é, tediosa; como papos sobre o tempo e músicas da Björk. Somos feitos de desejos. Culpo-me por pensar em te procurar.

*

Foda-se. Sei onde você anda agora, perguntei por aí. Com sujeitos da pior espécie, ouvi notícias. Vou te ver, ou melhor, preciso te ver, preciso expurgar coisas, lembranças, buscar motivação, respostas. Ando mentalmente rápido ao seu encontro.

*

Ela me proporciona aquela sensação de férias, que é sempre melhor que a realidade. Consigo seu telefone pelo jornal, nos classificados, e marcamos o encontro em um motel beira de estrada, placa vermelha piscante. Ela aceitou de imediato a proposta. Safada. Ponho minha melhor roupa junto aos meus piores pensamentos.

*

As pessoas esquecem-se do que você diz, mas nunca de como você as fez sentir. Subo as escadas. Não sei se a amo, ou gosto mais da sensação de estar apaixonado. O que falar? O que demonstrar? Talvez, na verdade, eu seja o tipo de pessoa que só acredita em si através dos elogios dos outros. Suor frio… Respiro fundo e acendo um cigarro, parado na porta do quarto. Movo incríveis forças para tocar a campainha. Ela abre a porta. As filhas deles vão me deixar, você não. Tu continuas linda, branquinha. Quero você. Por 20 reais. She don’t lie.

Te amo, Cocaína.

Texto publicado no Jornal Relevo, Curitiba, março, 2013

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