Ouro de tolo

impossível não acabar sendo do jeito que os outros acreditam que você é – gritou Gabriel, meu vizinho

24 anos e sinto-me com 84

Tuberculoso, senil

Você passa uma vida aberto a sorrisos, afeições

Para terminar às 11 da noite do dia 31 em um posto de gasolina comprando mini garrafas de uísque, sozinho

Ou se masturbando, sonhando com mulheres que nunca irá conhecer.

Visitei um dos amigos, Diogo, às 14

“Vamos sair porra! Vamos tomar uma! Chega de bocejar, minhas pupilas não dilatam mais!”

como todo bom amigo, conversamos, mesmo após nada mais a dizer

Mas teve que ir embora por força maior, sua mulher. Olhou pra cima,

Ritalina brincava de rosquear a aliança no próprio dedo e nos observava pela janela – eu, ele e meu nariz

que estava escorrendo, fruto de uma gripe boliviana

Os outros amigos estavam com suas famílias, seus filhos feitos sem camisinha, suas mulheres gordas e novas e parentes distantes sem nenhuma intimidade causando silêncio na sala de estar.

Segundo Deus, era pecado comemorar mais um ano de nossas vidas na Terra, então Papai não celebrava, ele ia dormir e apesar do barulho e cheiros, fingia ser apenas mais um dia no Paraíso

Mamãe estava com a namorada.

Minha ambição é honesta, sabe?

Eu só queria trilhar meu caminho, seguir meus planos, dar importância as minhas coisas pequenas – sem enlouquecer.

Carrego cigarros soltos paraguaios e pulmões bronzeados

na sacola 7 cervejas e uma pedra 90

Bebo rápido pra não esquentar

Caminhando em direção à praia,

Por ruas onde amei de verdade, iluminadas por enfeites de Natal ainda não recolhidos

Evocando memórias nubladas, sentimentos idosos, maníacos

Meus olhos ficam vermelhos…

O peito começa a chiar. Não me permito fraquejar.

Estaciono em um prédio de frente ao mar

23:54

pingos grandes e grossos caem como cuspes

Pessoas, muitas, embaixo das marquises nos prédios, aguardam os fogos e escondem-se dos ventos e raios no último dia do ano

Passam por mim como se eu fosse um fantasma, um móvel velho na sala da cidade

Encontro outro amigo e sua família, cumprimentos – feliz ano novo! – e todas aquelas merdas ensaiadas

seu olhar de compaixão faz um bem danado, pra ele

Que agradece no íntimo ao seu Deus pelas bênçãos que alcançou na vida

percebo-me com os dedos sujos, barba bicolor, dentes amarelos, camisa de vereador e um cheiro de mijo e suor de dias

Ele coloca 10 reais no meu bolso, diz que é pra eu comer, não usar droga

Não sinto fome, sinto desejo

Saio em direção aos vendedores ambulantes da praia

Dois PMS a pé me abordam antes, revistam minha mochila, meu espírito

Um deles me pergunta se conheço a assistência social. Eles riem.

Viados. Não quero saber. Cansei de assistencialismo. De Marxismo, Capitalismo, Feminismo, Sadomasoquismo, Conservadorismo, de aforismos. De ismos.

Há canalhas tanto de esquerda quanto de direita, disse-me uma vez tio Nelson.

Eles me liberam, vou embora em silêncio – mas guardo os nomes que vi na farda –

Quem não deve, não chama policial de Senhor.

crianças, mulheres e velhas com o cabelo imóvel me olham com medo, nojo, desdém

Fogos. “A prefeitura investiu bastante esse ano” – diz alguém,

Não há maldade no que entra na boca de um homem, e sim, o que sai dela –

Diz uma simpática mulher, de amarelo,

Que bebe sua cerveja de um gole, sorrindo

Amassando a latinha e entregando-a em minhas mãos

Imaginei como seria. nós. Um dia,

Em 7 ondas pular.

Quem é do mar não enjoa.

Texto publicado no Jornal Relevo, Curitiba, junho, 2013

http://issuu.com/jornalrelevo/docs/relevo_-_junho_de_2013

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