Obituário, página 34, Gazeta Popular, em uma tarde ensolarada no inverno de Agosto

Tinha vindo à cidade para tratar da sua doença. Ultimamente, ele não era de conversar muito. Em uma das poucas vezes em que estava disposto, tentei puxar assunto sobre o seu Botafogo do Rio de Janeiro. Não me respondeu, não parecia entusiasmado. Talvez porque suas entranhas estavam sendo comidas por um câncer terminal no estômago. Ou talvez pensasse que se dependesse de alguma alegria vinda do Botafogo, ele poderia já cavar sua cova. Recordo-me dos seus mares de olhos verdes, profundos e grandes como bolas de gude ao comentar que tinha viajado pela primeira vez de avião, vindo do Rio para Curitiba. “ Nando, tudo é calmo visto de cima. Criaram o céu para nos lembrar de algo. Ah, sim.” – disse, com as pupilas dilatadas.

Tinha o hábito de observar pela janela o Sol ao nascer, evocando memórias dos cabelos em ondas de sua mulher, que o havia deixado anos antes, pela mesma doença. Não deixou filhos, não plantou árvores, não escreveu um livro e não sentiu falta de nada disso. Foi militar. Mas só até às 6 da tarde, quando deixava o quartel. Não conseguia enxergar fronteiras imaginárias traçadas por humanos na Terra, não conhecia inimigos. Seu instinto bélico voltava-se a sua amada, em horas sem trégua deitados na rede de sua casa no litoral fluminense. Nasceu baiano há 69 estações atrás e diferente do senso comum atribuído a sua gente, veio com pressa, de seis meses. Possuía um jeito manso ao falar, que inspirava calma aos outros e valia por 10 sessões de análise ou uma ida a Igreja. Deixa saudades nas irmãs, fotos desbotadas e textos não publicados, todos repetitivos: declarações amanteigadas à esposa. Seus ditos espirituosos vão ser recitados por gerações de amigos em Madureira. Ontem pela manhã, fechou permanentemente seus olhos em uma cama no Sul do mundo ao meu lado, acordando horas depois, procurando seus óculos.

entre árvores e esquecimentos

nossa senhora das estrelas

onde eu revelo as fotos da memória do coração?

Num calmo desassossego

de uma libriana, com lua em peixes e ascendente escorpião

Abro os trabalhos

Em gemidos secos

ela alivia meus medos.

do tsunami de travesseiros

ao eterno retorno aos seus lençóis,

minhas costas são desenhadas por suas unhas fundas

lá fora os sinos do artesanato, conchas gemem

lembrando que eu tenho que voltar a ver o mar, amar

em veracidade, ver a cidade.

 

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blood, sugar, sex, magick.

O paraíso com 72 virgens

Uma sociedade sem classes

não te ligar mais bêbado

quantas muletas me suportam?

não possuo problemas contra Deus

eu apenas não gosto de seus filhos

Toda palavra é uma máscara e –

entre esquerda/direita –

O universo é avesso a ideologias.

menina, Não há necessidade de transformar água em vinho

se eu posso comprar um tinto no posto da esquina.

 

pro amor que eu não tive, todo o meu amor.

O vento seco de Oyá lambe meu espírito

Marés invadem meu estômago

Emanações do que ainda pode ser vivido

É como coçar os olhos com força, fechá-los e os abrir rápido –

Fogos de artifícios explodirão em sua retina

A boca cheia de dentes pelo prazer de estar com você

Nossas vidas são chamas curtas em palitos de fósforo

Trago o verde para os nossos pulmões

Tu cita uma linda frase que pra sempre eu nunca mais lembrarei

Por estar ocupado observando as estrelas do céu da tua boca

Há 300 anos nossos ancestrais dançavam aqui

Me ensina?

meia entrada, quarta de tarde

Na primeira vez que o convidei, eu quis ver o pior filme,

O burro não entendeu, só na segunda seguiu minha vontade

Poltronas vazias, meia dúzia de gatos pingados

espero passar o trailer

O ar condicionado deixa-me com bolinhas de frio nas coxas

seu olhar está em mim, canhotamente

em 7 minutos

traz minha nuca com uma delicadeza bruta, invade minha jugular

e me beija sem demora, chupando meus lábios com Halls preto

levanto o descanso de copo que nos separa

minha mão cai sobre sua calça, sinto o volume

nesses momentos, minha mente aquieta-se e um silêncio interno grita, atinjo o nirvana ansiado por monges

enquanto minha língua rodopia na boca

Ele afasta gentilmente minhas pernas,

põe minha calcinha de lado

dentro de mim seu dedo me chama, diz: vem cá

sons molhados, abafados pelos diálogos iniciais

miro sua orelha, sussurro gemidos, ecos em seu ouvido

ele tira o dedo-médio e o coloca no meio do nosso beijo

meu mel escorre da minha língua

Abro sua calça e pego nele, firme

minhas mãos deslizam no seu pau molhado, faço devagar,

Em poucos segundos, tenho um vulcão e sua lava em minhas mãos

limpo na poltrona, nos arrumamos, voltamos pro filme.

A pipoca ainda está quente.

Outro dia em Malkuth

Descubro que não entendo de arte. Que estou no meu emprego pelo dinheiro. Que gosto de dias de Sol com frio. Que ainda acordo com a cueca suja de porra, mesmo tendo 32 anos.

Mariana era como uma luz em um poste. Diversos homens-mosquito sem querer queimavam-se ou morriam ao tocá-la.

Ele entra na farmácia, compra o genérico do Viagra, água mineral e camisinhas duplamente lubrificadas. Hoje sua mulher trabalha no turno da noite. Sorte de sua enteada.

Maria fala carinhosamente no ouvido dele, o mesmo apelido que dava ao anterior namorado.

Não sabe a diferença entre poema/prosa/poesia, Afeganistão e Tadiquistão. Mas aprendeu o significado de hipoteca e consegue agora encaixar em suas conversas.

Gustavo a ama. Eis a questão. “Melhor que eu a coma, se não fizer, outro o fará, e pior” – pensou o abnegado.

Masturbou-se pela primeira vez aos 18 anos. Sentiu-se culpada. Saiu do banho, eram 7 horas. Horário do culto.

Não consegue mais amar sua mulher. Não sente empatia pelos filhos. Sente falta das escolhas, de outra (s) via (s), outras vidas. A parte mais excitante do seu dia foi correr atrás do ônibus para o trabalho.

Antônio evita falar com seu filho a 4 anos, esperando ganhar uma guerra surda.

Ela é feia, e tenta compensar tal falha sendo inteligente. Porém Ana só consegue atenção quando coloca sua calça de ginástica e os homens olham sua pélvis.

“Perguntei de que cor ele gostava. O ignorante respondeu azul, e ficou lá, mexendo no celular. Não me interesso pela cor de sua preferência. Eu queria saber mesmo qual seria a cor da lingerie de mais tarde. Azul! Putz.”

Minto para puxar assunto com as pessoas. Para torná-las mais interessantes. São mentiras que me ajudam a extrair coisas delas.

Conheceu uma mulher simpática, que lhe emprestou uma caneta no banco para assinar o depósito. Os olhos dela sorriam. Imaginou como seria. Quis entrar entre seus rins, com força.

Não conseguia gozar. O rapaz ficava como uma britadeira lá, batendo e batendo. No máximo, molhada. Sozinha era mais fácil.

Henrique é aspirante a escritor. Desde que conheceu Isabela, parou de escrever. Ele sente falta de sua melancolia.

Era verão e as cigarras cantavam para morrer. Ouviu os pais transando no quarto ao lado, a cama relinchava como uma gaita de fole. Fran não conseguiu dormir direito por causa do ventilador quebrado que ampliava o seu calor.

Trepou com a menina mais linda da cidade. Ganhou candidíase.

Alice no país dos espelhos

O rapaz entrou no ônibus cheio, quente, às 6 da tarde. Sentou-se no chão e tirou do casaco uma lata de tíner. Abriu-a e a despejou na camisa. Começou a baforar, a sugar vida; não muito diferente de como eu fazia há 10 anos. O cheiro deixa o ar pesado, rançoso. As pessoas, enjoadas e com medo, saem de perto dele, todas vão para frente da lotação. Sua tática deu certo. Ele consegue sentar na cadeira acolchoada, na janela, e, melhor de tudo, sem ninguém por perto. Um senhor o observa com auto piedade. Ele ri de canto de boca. O velho foi um filho da puta a vida toda e agora pensa que seus cabelos brancos lhe conferem uma aura de bondade. O rapaz não vai ceder o seu lugar. Porque eu nunca pensei nisso antes?