Calendário Seicho No Ie 3

Sempre pensava no mar como la mar, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. Às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam bóias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem el mar, que é masculino. Falavam dele como de um adversário, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se fizesse coisas selvagens ou maldades era porque não podia deixar de as fazer.

“A lua afeta o mar, tal como afeta as mulheres”, pensou o velho.

 

Hemingway.

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Nota

ela parecia uma daquelas ilustrações do Benício…

… e tocava o interfone sem parar. “Sou eu” disse a moça. Logo abriu a porta do prédio. Sentiu-se estúpido por não perguntar o nome. Fazia isso sempre. Se algum ladrão quisesse roubar seu apartamento e de seus vizinhos, era só responder ao interfone “Sou eu” e voilá! Carta branca para entrar e levar tudo.

Ela chega afobada e o beija forte, lambendo lábios, jugular, orelhas. No quarto, escuta-se apenas o barulho do ventilador de chão a rodar e das sentadas que ela dá sobre seu corpo. Carne bate contra a carne, e ele sente as marés de fluídos dela invadindo seu saco e coxas.

Seis dias atrás conversavam, com Anna chorando ao telefone. Havia perdido muito sangue devido ao Citotec. Ela lhe contou que havia passado 1h30 debaixo do chuveiro, sangrando. O marido estava viajando e ele, além de estar ocupado no trabalho, estava com medo e não pôde ajudá-la.

4 meses depois

Voltava para casa, depois de um dia amputante de trabalho e lutava para manter os olhos abertos. O balanço do ônibus, o relaxamento por estar sentado e a sua imagem em vultos, ajudaram-no a ter uma ereção. A cabeça do pau doía dentro da calça, pois ela também possuía memória. Sentia falta dela e dos 4 quilos que havia perdido. A saudade em pensamentos o fez agir: quis saber como estava sua vida em todas as redes sociais. Talvez alguma música ou aquelas frases em forma de indireta postadas poderiam sinalizar algo sobre seus sentimentos. Observava durante longos minutos as fotos do casal enquanto inspirava cigarros paraguaios. Selfies na praça de alimentação, compras em São Paulo, final de semana na praia – com o trouxa ajoelhado oferecendo um anel para ela, a beira mar. Nos comentários, a amiga diz: “Até que enfim! Parabéns! Quando é o casamento?”.

“Olha só esse cara”, pensou. “Costas curvadas, rosto de São Bernardo e óculos pendendo sobre o nariz. Deve curtir Curling também. Esse filho da puta não deve comer essa mulher direito. Será que o São Bernardo sabe que ela tem espasmos ao dormir? Que Anna sempre chora ao ver crianças brincando e que por isso evita parques? Que ela gosta de transar de manhãzinha, ao acordar?

Cansado de vê-los, decidiu fazer algo de útil. Foi ao banheiro e bateu uma, assassinando futuros filhos e afogando-os no redemoinho da privada.

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2 anos depois

Gostava daquelas noites de verão, o vento seco fazia-o sentir-se vivo. Decidiu ir ao centro velho, conhecido por seus bares. Há 590 anos, neste local, índios celebravam rituais e ingeriam chás para entrar em transe e falar com seus deuses.

Como de costume, a primeira garrafa de cerveja acabou rápido. Enquanto pedia a segunda – para agora sim, apreciar a bebida – avistou Anna entrar no bar com o marido. O São Bernardo continuava o mesmo. Já Anna carregava cabelos negros até as ancas e trajava um vestido leve, com saltos baixos em formas de asas. Possuía uma aura magnética, como uma luz em um poste. Diversos homens-mosquito podiam queimar-se ao tocá-la. Analisaram o cardápio e após o pedido feito, o marido de Anna foi ao banheiro. Era sua deixa para dizer certas verdades. Acendeu um cigarro pra tomar coragem e, olhando-a de longe, um misto de tristeza o invadiu: ela ainda o afetava, e essa importância só demonstrava o pequeno poder que ainda exercia sobre ele.

Anna estava com uma barriga enorme, pontuda. Talvez 7 ou 8 meses. “Foda-se”, pensou. Decidido, terminou de um só gole a sua cerveja e se colocou a passos lentos para casa. Naquela noite, transou forte com a esposa, em todas as suas partes possíveis. Enquanto entrava nela, olhava para o seu filho adormecido no berço ao lado, o que só o fez meter mais forte e rápido. Teve um agradável sono sem sonhos naquele 27 de janeiro e não se permitiu acordar quando seu menino chorou.

ascensão

Poderia eu ser a piada deste bar

cigarro amassado, olhar de São Bernardo

ela foi me deixando, assim, devagar…

Por mais que gritasse, não houve frase clichê de Caio Fernando Abreu que a fizesse retornar

carregando o seu nome, disparei balas de intenções

ainda trago três marias tatuadas no meu ombro, lembra-se?

quando tu voltar, irei te agradecer em beijos com relógios parados

*

em meu país de origem conheci o amor: apertei suas pequenas mãos

você não ainda não a tirou do pensamento –

disse a negra em meio a velas de encantamentos

em velhas ruas e

queimando cigarros na beira da janela – como é sentir saudade do que nunca foi seu?

durante várias vidas e quando o Sol secar daqui a bilhões anos, ao fim dos meus dias – como Borges

minha mão traçará versos sobre o esquecimento,

e quando achar a minha paz

irei dar o melhor de mim a você até o final dos tempos.

 

 

Calendário Seicho No Ie

“É injusto que se apeguem a mim, embora o façam com prazer e voluntariamente. Eu iludiria aqueles em quem despertasse desejo, pois não sou o fim de ninguém e não tenho com o que satisfazê-Ios. Não estou eu pronto a morrer? E, assim, o objeto do apego dessas pessoas morrerá. Logo, quando não seria eu culpado por fazer crer numa falsidade, embora eu a adoçasse e acreditasse nela com prazer, e que ela me desse prazer, ainda assim sou culpado de me fazer amar. E, se atraio as pessoas para que se apeguem a mim, devo advertir aqueles que estariam prontos a consentir na mentira de que não devem acreditar, qualquer que seja a vantagem que daí me advenha.”

Blaise Pascal.