Nota

ela parecia uma daquelas ilustrações do Benício…

… e tocava o interfone sem parar. “Sou eu” disse a moça. Logo abriu a porta do prédio. Sentiu-se estúpido por não perguntar o nome. Fazia isso sempre, até com o cara do gás que passava toda terça. Muita confiança. Se algum ladrão quisesse roubar seu apartamento e de seus vizinhos, era só responder ao interfone “Sou eu”, e voilá! Carta branca para entrar e levar tudo.

Ela chega afobada e o beija forte, lambendo lábios, jugular, orelhas. No quarto, escuta-se apenas o barulho do ventilador de chão a rodar e das sentadas que ela dá sobre seu corpo. Carne bate contra a carne, e ele sente as marés de fluídos dela invadindo seu saco e coxas.

Seis dias atrás conversavam, com Anna chorando ao telefone. Havia perdido muito sangue devido ao Citotec. Ela lhe contou que havia passado 1h30 debaixo do chuveiro, sangrando. Ele estava trabalhando e com medo, não pôde ajudá-la.

1 mês e meio depois

Voltava para casa, depois de um dia amputante de trabalho. Lutava para manter os olhos abertos no banco da lotação. O balanço do ônibus, o relaxamento por estar sentado e a sua imagem em vultos, ajudaram-no a ter uma ereção. Seu pau latejava dentro da calça, pois ele também possuía memória. Não soube precisar como ela veio em pensamentos. Sentia falta dela e dos 4 quilos que havia perdido.

A calcinha de Anna ainda estava no varal e logo tratou de martirizar-se. Quis saber como estava sua vida em todas as redes sociais. Talvez alguma música ou aquelas frases em forma de indireta postadas poderiam sinalizar algo sobre seus sentimentos. Observava durante longos minutos as fotos do casal enquanto inspirava seus cigarros paraguaios. Retratos em um fim de semana no campo, compras em São Paulo, na praia – com o trouxa ajoelhado oferecendo um anel para ela, a beira mar. Nos comentários, a amiga diz: “Até que enfim! Parabéns! Quando é o casamento?”.

“Olha só esse cara”, pensou. “Camisa do Bon Jovi, costas curvadas, um rosto de São Bernardo e óculos pendendo sobre o nariz. Deve curtir Curling também. Esse filho da puta não deve comer essa mulher direito.”

“Será que o São Bernardo sabe que ela tem espasmos ao dormir? Que Anna sempre chora ao ver crianças brincando e que por isso evita parques? Que ela gosta de transar de manhãzinha, ao acordar? O corno deve saber, os dedos de ambos reluzem.”

Cansado de vê-los, decidiu fazer algo de útil. Foi ao banheiro e bateu uma, assassinando mais uns filhos, afogando-os no redemoinho da privada.

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2 anos depois

Gostava daquelas noites de verão, o vento seco fazia-o sentir-se vivo. Com sede, decidiu ir a Rua Angústia, conhecida por seus bares. Há 590 anos, neste local, índios celebravam rituais e ingeriam chás para entrar em transe e falar com seus deuses. Hoje em dia não era muito diferente: apenas as bebidas mudaram.

A primeira cerveja desceu rápido, evaporada pelo calor de dezembro. Enquanto pedia a segunda, avistou Anna entrar no bar com o marido. O São Bernardo continuava o mesmo. Já Anna carregava cabelos negros até as ancas e trajava um vestido leve, com saltos baixos em formas de asas. Possuía uma aura magnética, como uma luz em um poste – diversos homens-mosquito podiam queimar-se ao tocá-la. Analisaram o cardápio e após o pedido feito, o marido de Anna foi ao banheiro. Era sua deixa. Seria uma boa hora para ser irônico e despejar um pouco de lixo emocional em palavras debochadas nela. Olhando-a de longe, um misto de tristeza o invadiu: ela ainda o afetava, e essa importância só demonstrava o pequeno poder que ainda exercia sobre ele. Anna estava com uma barriga enorme, pontuda. Talvez 7 ou 8 meses. “Foda-se”, pensou. Decidido, terminou de um só gole a sua cerveja e se colocou a passos lentos para sua casa. Naquela noite, transou forte com a sua esposa, em todas as suas partes possíveis. Enquanto entrava nela, olhava para o seu filho adormecido no berço ao lado, o que só o fez meter mais forte e rápido. Teve um agradável sono sem sonhos naquele 27 de janeiro, e não se permitiu acordar quando seu menino chorou.

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