nevou na montanha

ATO 1

chegou devagar de bicicleta
mesmo assim foi observado, todos estavam alertas
chama o chegado de canto
o rapaz trabalha de noite, sem adicional noturno
hoje ia dar uns tiro até descer o santo:
quero um pino de dez! – e abriu a carteira no meio da rua
– tá louco filho da puta? baixa isso, passa aqui
entrega gramas em suas mãos e o mede
ele vai embora e com uma nota de 2 cheira em seu CPF
aspirando angústia em pequenas batalhas
cigarras cantam a sua morte
lágrimas desaguam nas bochechas tão salgadas quanto o oceano
vozes sussurram aos seus ouvidos da janela
rostos derretidos na rua o julgam, demônios prestam saudações
hora de ir ao encontro da mais bela
seu desespero é um anzol boiando num mar de peixes-intenções.

FIM DO ATO 1

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bebendo e dirigindo

Revoluções de direita, socialistas com cartão de crédito
Crianças sonham em usar fardas
é proibido fumar nos bares
e best sellers não são os melhores livros para ler
Padres se masturbam para aliviar a tensão de guardar segredos de tantos fiéis
E a classe mérdia permanecerá feliz e dócil
Enquanto puder comprar geladeiras isentas de impostos, trocar de carro a cada três anos e viajar para fora do país
e seus filhos, por não terem mais do que reclamar de uma sociedade injusta
Irão se abster de canções contestadoras e farão melodias românticas e trilhas de comerciais
Com calças coloridas enfiadas no cu

meditações em situações de emergência

… desconhecem o ínicio da Criação. Nascem do meio das pernas de uma mulher, envoltos em fluídos e excrementos que ela não segurou durante o parto e a chamam de mãe. No meio, muitos permanecem adormecidos, anestesiados pela Vênus do Varejo. No final, eles têm medo de ouvir a voz daquela que os chama para atravessar o outro lado. O céu deixa de ter significado, se o inferno não existe.

Não entendem o infinito e a falta de palavras para expressar uma realidade sem gramática causa-lhes angústia, que é devidamente aquietada com sêmen desperdiçado em vazias mulheres anencéfalas e uísque barato, além de religiões-aspirinas e filhos-expectativa, que, se bem tratados, futuramente os colocarão em ótimos asilos com roupas brancas. Políticos vampiros contam histórias de Noé, e querem que eles acreditem, literalmente/literariamente, passivamente.

 – Seu filho da puta! Tu tem dinheiro pra cheirar, mas pra me levar pro Motel não? Seu bosta!

Do outro lado da rua, ela grita. O homem baixo fecha suas mãos e cinco dedos enchem a cara da menina.

Observo. E moedas caem no meu chapéu.

– Oh, obrigado. Deus lhe pague.