Carta para Camila

Bom dia,

Emails são as cartas de antigamente, servem de provas físicas (?) de amor. É que te fazer rir em mensagens, curtir suas fotos e compartilhar aquelas músicas de elevador do Chico Buarque que você gosta não surtem efeitos, então espero que estas palavras formalizadas neste documento sejam apreciadas e que peloamordeDeus, não caiam no seu lixo eletrônico. Sim, guria com nome de fruta do deserto, quero comer você. Você é a razão dos meus banhos demorados. Não fique franzindo as sobrancelhas, encare isto como um elogio. Despertar o melhor nas pessoas, desejos sinceros, é um dom, e tu, com suas pernas, é capaz de me fazer chegar a Samadhi (procure no Google). Hoje os planetas alinharam-se e não aconteceu porra nenhuma, só me descobri bêbado – acabo de chegar em casa e foram necessárias algumas cervejas chocas para me dar a coragem necessária e a desculpa para escrever sobre você.

Necessito saber os porquês das suas recusas em estar comigo. Sexta feira retrasada, pela nonagésima vez, te chamei para sair. E, pra onde foste Morena Rosa? Teve que ajudar sua avó com as compras, era dia de promoção da Mistura no Supermercado, e, coitada, a velha não poderia carregar peças pesadas de carne sozinha. Compreendo. Sábado passado, estava de cama. Anteontem, dor de cabeça. Ontem a gripe te pegou com fúria. Tu tem problemas! Vou te ajudar.

Pois bem, sou um pouco médico das almas, tipo Lucas. Comecemos por uma breve avaliação médica de sua pessoa em meu consultório etílico, minha linda dos dentes pequenos. Nome da paciente: vindo do mundo árabe, seu nome de batismo significa “fruto doce” e tem correspondentes no hebraico também. Cor da pele: cor de cobre, apesar de morar em uma cidade sem praias. Cabelos: semelhante aos olhos, castanhos. Idade: suficiente. Profissão: desenhista de casas, prédios, arquiteta de sonhos. Cultura: gosta de livros breves e músicas que emanem calma, para equilibrar o seu interior de ansiedade extrema. Bebida favorita: uísque, para sair do corpo astralmente. Lugar preferido: locais de água salgada, sem protetor solar. Cheiro do corpo: baunilha. Problema: não acreditar mais em relacionamentos humanos, apesar de admirar quem os consiga. Sintomas: cansaço dos demais homens, apatia pelos presentes recebidos, falta de interesse em assuntos do coração, meses sem sexo, desencanto e recolhimento para dentro de si, como uma ostra. Causa: namoro mal sucedido de seis longos anos, quase-casamento. Seus relatos são mais deprimentes que uma tarde de compras em uma loja para material de escritório. Solução para o problema: proponho para ti um remédio recomendado por Bakunin e Thoreau. Sugiro pequenas doses diárias de Anarquia! Três vezes ao dia. Anarquia significa ausência de líderes, mas não de ordem. Olhe, não teremos mandantes em nossa união. Não pretendo ser teu Senhor, lhe sufocar fazendo-te minha propriedade privada, erguendo muros em volta de ti. Nossa ordem será imposta pela satisfação em estar junto e tem como obrigatoriedade eu arrancar continuamente sorrisos tímidos seus, sempre. Seremos revolucionários! Desobedeceremos às cobranças, e expectativas – não criaremos.

Preta, deixa eu te falar. Aquele rapaz, seu quase noivo, não era seu grande amor. Veja bem, não existem almas gêmeas, tu já nasceu completa; o resto são filmes românticos com Ashton Kutcher que te moldam o coração. Podemos ter algo interessante com qualquer pessoa, todos os dias. Ou vai me dizer que nunca se apaixonou em minutos por um rapaz no ônibus e naquela troca de olhares breves você sentiu borboletas voando no estômago até ele descer da condução? Ou ainda o seu amor não tenha nem nascido, talvez ele esteja agora sendo levado para um hospital aos cuidados do obstetra. Pare de carregar consigo a ideia de que naquele tempo era bom. Não, não era. Te escravizou, limitou, sugou o teu espírito do mesmo modo quando contemplamos por muito tempo fotografias velhas. Levante seus olhos de jabuticaba, abra bem seus braços. Eu sei bem como é. Mas, coragem! Eu venci o mundo. E tu também o pode.

Digo-lhe: não vou te levar ao McDonalds. Não almejo estar sentado no sofá, em um domingo chuvoso vendo Faustão junto aos seus pais. Eu quero fumar com você deitada no meu quarto e declamar versos de Calvin e Haroldo. Pretendo em uma quarta a noite dar um mergulho na praia, pelado, contigo. Vou te levar ao Teatro, só para ver comédias. Aboliremos os cupcakes do mundo. Deixarei você dormir até mais tarde nas subidas e descidas do meu peito. Foda-se a cafonice de Dubai! Viajaremos em templos na Tailândia e tomaremos café perto da casa de Gaudí. Mas fique esperta! Não sou um cara totalmente bom e não o prometo ser. Eu acho Rienzi linda, assim como Hitler. Possuo momentos em que necessito ficar sozinho, assim como os pulmões precisam de ar. Não gosto de MPB.

Prometo dar um tempo a você, libriana. Ando te esperando e sei que Chronos é nosso pastor e nada nos faltará. Take it easy!

Com glicose e com afeto,

Nando.

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