sua buceta era uma guilhotina e

ela subiu na mesinha da cozinha e abriu as pernas
eu entrei dentro dela esticando meus pés para alcançar a altura certa
com suas mãos moendo minha nuca e costas.
durante o coito, ela imaginou que se conseguisse despertar a mesma vontade em seu ex-marido, talvez ainda hoje estivesse feliz.
já eu divagava sobre a resistência curda e em rock de rádio para não gozar – e também no meu egoísmo ao não ajudá-la a recolocar suas roupas.

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meu amor por você não enche uma folha de sulfite

num hotel barato no centro da cidade
o guarda roupa estava pichado como banheiro de rodoviária
suportávamos nus o inverno, colados
e tua barba me deixava vermelha

você entrou em mim diversas vezes e seus olhos pousaram sobre os meus
eles me prometeram
uma casa pequena perto das ondas e uma linda menina
“ela terá os cabelos claros da mãe e vai passear comigo em meus ombros”
enquanto seus lábios moviam palavras
imaginei você escrevendo, nossa varanda, tijolos
em um quarto de hotel tínhamos chocolates e água
e lágrimas felizes caíam das minhas bochechas
suas mãos depois do banho – enrugadas, me fizeram te desejar até a velhice

num hotel barato no centro da cidade, 3 meses depois

tu disseste “eu te amo” pela última vez porque era o que eu queria ouvir

e foi embora

o Egoísmo, aquele filho da puta, se revelou sua amante

e sua tatuagem me faz lembrar que demônios também têm asas

e o quase-amor,

essa bela flor
irá crescer como uma praga em seu coração,

e minha bulimia,

minha arritmia

serão seus troféus de dor.

*

eu a moça de vestido abóbora

nos encontramos em um pub irlandês onde garçons haitianos nos serviam e naquele dia eu havia recebido o salário do mês e podia impressioná-la com a minha independência financeira, pedindo porções fora da promoção. após uma breve conversa inicial, ficamos em pé no canto mal iluminado do bar e nos beijamos por três horas – parando somente para respirar, trocar a cerveja do copo, mijar no banheiro a mesma cerveja e encontrar dentro da garganta um do outro algum resquício de amor, anestesiando a solidão de uma cidade que é recordista em dias cinzentos no mundo.