meu amor por você não enche uma folha de sulfite

num hotel barato no centro da cidade
o guarda roupa estava pichado como banheiro de rodoviária
suportávamos nus o inverno, colados
e tua barba me deixava vermelha

você entrou em mim diversas vezes e seus olhos pousaram sobre os meus
eles me prometeram
uma casa pequena perto das ondas e uma linda menina
“ela terá os cabelos claros da mãe e vai passear comigo em meus ombros”
enquanto seus lábios moviam palavras
imaginei você escrevendo, nossa varanda, tijolos
em um quarto de hotel tínhamos chocolates e água
e lágrimas felizes caíam das minhas bochechas
suas mãos depois do banho – enrugadas, me fizeram te desejar até a velhice

num hotel barato no centro da cidade, 3 meses depois

tu disseste “eu te amo” pela última vez porque era o que eu queria ouvir

e foi embora

o Egoísmo, aquele filho da puta, se revelou sua amante

e sua tatuagem me faz lembrar que demônios também têm asas

e o quase-amor,

essa bela flor
irá crescer como uma praga em seu coração,

e minha bulimia,

minha arritmia

serão seus troféus de dor.

*

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