um dia em 2007

Meu melhor amigo acordou falando sobre Deus após deixar todas as torneiras abertas e querer transformar janelas em portas
Babava palavras dizendo que o mundo foi criado por alguém que não nos amava
enquanto raios de sol invadiam a sala ao se abrir as cortinas da alma
o pai dele evitava sorrir para não exibir os dentes podres
e sua mãe vociferava que em sua esquizofrenia eu tinha parte
sendo que eu cheirava sozinho

Saí de lá com o estômago doendo de vazio e cigarros
conduzindo o coração como um Sísifo rola-bosta
Tinha 17 anos, alguns meses e uma tristeza represada de várias vidas
queria morrer dormindo
com as varizes descansadas depois de entregar lanches por 15 reais/dia no centro da cidade

não agradeço e nem peço nada em minhas preces
somente dúvidas
Senhor, você é tolerante devido a sua baixa estima para agradar aos demais? Onde foi parar a energia dos rituais feitos pelos homens para deuses já esquecidos? O Universo tem nome?

apaixonado, eu pintava com água poemas na calçada da cidade
minha menina dos olhos perguntava se escrever dava dinheiro
e o boleto lembrava as 2 prestações por pagar dos livros de merda do Augusto Cury que ela adorava ao mesmo tempo que na encruzilhada
ao beijar a namorada
o rapaz me olha com desejo

Maria tem cheiro de água sanitária nos dedos
e o histórico de gemer alto para mostrar aos vizinhos e a si mesma que é feliz
ela pega no seu pau por dentro bolso da calça
e pergunta se ele poderia comprar um guaraná para a filha adolescente
que está encostada na árvore
um Buda esperando a iluminação
entediada por passar o final de semana que o juiz determinou com a mãe.

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