não sou conduzido, conduzo

“Ain, vem trabalhar em São Paulo” um amigo diz.

“Pra quê, caralho? O Piva já disse que SP é uma grande caixa registradora decadente, uma necrópole composta de prédios-obeliscos-penianos onde o discurso corporativo faz parte do sotaque Boça-anasalado e está entranhado num imaginário coletivo que transformam pessoas em empresas

E

elas a-do-ram palavras em inglês como mindset, ASAP, fazer um call e fotos de ternos barra braços cruzados no LinkedIn que as dão um senso de pertencimento,

E não venha meter uma de Kennedy e dizer – não pergunte o que sua cidade faz por você e sim o que você faz por ela – 

eu te/me pergunto

o que

O QUE

ela tem a te/me oferecer?

fora shoppings, maconha bosta de cavalo prensada pelo PCC, Borba Gato e vaidade em restaurantes e bares – tire todo o entretenimento

o que sobra de São Paulo?

Anestesiado, você esquece o quanto ela esmaga seu espírito 

e começa a achar maravilhoso

pedalar em bicicletas do Itaú respirando uma neblina de merda

ao lado duma vala que chamam de rio.”

“Ah cara, muito longe…” respondi.

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this land is your land

Woody Allen come a enteada, a filha adotiva/Monteiro Lobato desfilava pela Sociedade Eugênica de São Paulo/Corbusier é referência nas escolas de arquitetura/Brasileiros dóceis tiram selfies com a polícia/Jovem-cirandeiro-pós-desconstruídx-da-facool tecla em caps lock STALIN MATOU POUCO no Feice/

Não importa o que você é, 

Desde que ofereça emoções a eles.

Working middle class hero

O crachá ostentação da firma (antes objeto de orgulho visível fora da camisa ao andar pela Vila Olímpia) carregava o peso da ilusão no pescoço.

Notícias sobre “reformas” trabalhistas, spams do Boston Medical Group e diversos boletos para apenas um salário o desanimavam.

Almeida estava velho para protestos pacíficos aos domingos.  

Mas mesmo assim, decidiu agir.

A revolução não seria televisionada. Sua tática gramsciana iria lentamente minar as forças do patronato:

cagada-demorada-remunerada.

Pensamento do último dia do ano

“Hoje encontramos no mercado uma série de produtos desprovidos de suas capacidades malignas: café sem cafeína, creme de leite sem gordura, cerveja sem álcool… E a lista não tem fim: o que dizer do sexo virtual, o sexo sem sexo; da doutrina de Colin Powell da guerra sem baixas (do nosso lado, é claro), uma guerra sem guerra; da redefinição contemporânea da política como a arte da administração competente, ou seja, a política sem política; ou mesmo do multiculturalismo tolerante de nossos dias, a experiência do Outro sem sua Alteridade (o Outro idealizado que tem danças fascinantes e uma abordagem holística ecologicamente sadia da realidade, enquanto práticas como o espancamento das mulheres ficam ocultas…)? A realidade virtual simplesmente generaliza esse processo de oferecer um produto esvaziado da sua substância, do núcleo duro e resistente do Real – assim como o café descafeinado tem o aroma e o gosto do café de verdade sem ser o café de verdade, a Realidade Virtual é sentida como a realidade sem o ser. Mas o que acontece no final desse processo de virtualização é que começamos a sentir a própria “realidade real” como uma entidade virtual.”

ZIZEK, Slavoj.

sua buceta era uma guilhotina e

ela subiu na mesinha da cozinha e abriu as pernas
eu entrei dentro dela esticando meus pés para alcançar a altura certa
com suas mãos moendo minha nuca e costas.
durante o coito, ela imaginou que se conseguisse despertar a mesma vontade em seu ex-marido, talvez ainda hoje estivesse feliz.
já eu divagava sobre a resistência curda e em rock de rádio para não gozar – e também no meu egoísmo ao não colocar crédito no celular para os dias seguintes.

meu amor por você não enche uma folha de sulfite

num hotel barato no centro da cidade
o guarda roupa estava pichado como banheiro de rodoviária
suportávamos nus o inverno, colados
e tua barba me deixava vermelha

você entrou em mim diversas vezes e seus olhos pousaram sobre os meus
eles me prometeram
uma casa pequena perto das ondas e uma linda menina
“ela terá os cabelos claros da mãe e vai passear em meus ombros”
enquanto seus lábios moviam palavras
imaginei você escrevendo, nossa varanda, tijolos vermelhos
em um quarto de hotel tínhamos apenas chocolates e água
e lágrimas felizes caíam das minhas bochechas
suas mãos depois do banho – enrugadas, me fizeram te desejar até a velhice

num hotel barato no centro da cidade, 3 meses depois

tu disse “eu te amo” pela última vez porque era o que eu queria ouvir

e foi embora

o Egoísmo, aquele filho da puta, se revelou seu amante

sua tatuagem me faz lembrar que demônios também têm asas

e o quase-amor,

essa bela flor
irá crescer como uma praga em seu coração,

e minha bulimia,

minha arritmia

serão seus troféus de dor.

*